Ao Dr. João Ranali

Aprendendo com sua presença

Meu pai geralmente começava uma palestra ou um discurso com uma lenda concernente ao assunto sobre o qual iria falar.
Um dia, pouco antes de nos deixar aqui na terra, estávamos na biblioteca dele, com outros familiares e ele me perguntou quais os livros que eu gostaria de ter, dos dele, e eu respondi que os de lendas, e sentado na sua poltrona, ele foi me indicando quais eram, pois sabia de cor onde seus livros estavam..
Eu me habituei também quando faço palestras, copiando-o, começar com uma lenda, e num dia tão especial como hoje vou homenageá-lo com a lenda de Eros.
Eros é o deus grego do Amor e uma das divindades principais da mitologia, e segundo a lenda ele nasceu ao mesmo tempo que a terra, de um ovo, cujas metades ao se separarem, formaram o céu e a terra.
EROS É A VIRTUDE ATRATIVA QUE LEVA AS COISAS A SE JUNTAREM CRIANDO A VIDA, O AMOR E A PAZ. É UMA FORÇA FUNDAMENTAL DO MUNDO E ASSEGURA NÃO SÓ A CONTINUIDADE DAS ESPÉCIES, COMO A COESÃO INTERNA DO COSMO.
Em torno desse tema autores de cosmogonia, poetas e filósofos tem feito numerosas especulações.
Eros é uma força intermediária entre os deuses e os homens, e segundo Platão teria nascido de Poros (recursos) e de Pênia (pobreza) e a esta origem deve caracteres bem significativos, pois como sua mãe pobreza ele sabe imaginar um meio de chegar a seu alvo, usando os métodos de seu pai recursos, e é uma força sempre em busca de soluções.
Um adendo: Quando faleceu meu avô José Ranali, o mesmo deixou nove casinhas em Rincão, interior de São Paulo, onde meu pai nasceu. E eram nove filhos. Toda a família sabedora dos dons especiais de meu pai, de tudo conciliar e dar a melhor solução, perguntou a ele o que fazer. Respondeu o mesmo que toda a renda dos alugueres ficaria para minha avó e para a tia Maria, a única que não havia se casado. E assim se fez. Quando uma pessoa sábia dá uma solução justa, todos a aceitam.
Mas, voltando à lenda de Eros, onde nessa lenda se enquadra meu pai o Dr. João Ranali?
Ele sempre foi um líder familiar e líder cidadão, e a família em torno dele girando sem que disso ninguém se apercebesse, dada a sua humildade espiritual, que era uma de suas características. Ele dizia que “quem é” não precisa sair por aí contando vantagens, e como Eros vagava entre o céu e a terra, pois sua espiritualidade está explícita em seus contos. Deles o que eu mais gosto é Xará, no qual um garoto pequeno e pobre fala com Jesus numa clareira.
Meu pai mantinha a coesão familiar e em seu ambiente de trabalho, e estava sempre perseguindo um objetivo: trazer a paz e a harmonia onde estivesse e para tanto buscava soluções para os conflitos.
Quando meu filho Alexandre era criança, eu estava fazendo lição com ele e o mesmo me perguntou o que era “virtude”. Eu expliquei e retornei a pergunta querendo saber se ele conhecia uma pessoa virtuosa. Sem pestanejar ele me respondeu: “Meu vô João”.
E, hoje onde você estiver, Dr.João Ranali, quero que saiba que tenho muito orgulho de ter sido sua filha primogênita aqui na terra, e que meus familiares também se ufanam de tê-lo tido por bastante tempo, no topo da direção da família Ranali, e que continuarei a lutar pela justiça dentro dessa família, pois dizem que tenho muitas características intrínsecas da sua personalidade.
É isso o que tinha a falar. Tudo muito simples, singelo, rápido, objetivo, mas profundo como você, meu pai.
JONIA RANALI – psicanalista, palestrante e escritora.

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