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O Xará

O Xará

Este conto foi escrito pelo Dr. João Ranali, meu pai, um imortal, Membro da Academia Guarulhense de Letras. Eu acho que é o conto mais belo que ele escreveu, e não consigo le-lo sem chorar.

 
O xará
 
Viviam ao deus-dará. Perambulando pelo mundo sem pouso certo nem esperança de te-lo. Encontravam alento para os seus tristes dias, na caridade pública. Alimentavam-se das pitanças estendidas por mãos caridosas que se confrangiam com a presença daquele casal, sem estribos nem montaria que carregava no colo ora no colo da mãe, ora no do pai, uma criança linda como se fora um anjo. Carinha resplendendo um eterno sorriso, cabelos encaracolados, inocência distanciada das maldades do mundo. Quando o casal se acercava para pedir telheiro ou comida, os solicitados dirigiam seus olhares, não para os pais pedintes, mas para a criança que lhes fazia companhia.
 
E pela criança e não pelos pais, a côdea de pão, bem como o repouso em alguma edícula desprezada onde abrigavam os corpos martirizados pelo cansaço. Paupérrimos, eram, sem dúvida. Mal possuíam os andrajos que lhes cobriam as carnes desprovidas de gorduras, dada a deficiência da alimentação que conseguiam. Mas, ao lado dessa miserabilidade, tinham a riqueza do filho que amavam com intenso apego. Para ele, todos os desvelos. No inverno, despojavam-se das poucas roupas para cobrirem o menino, fortuna das suas almas, enlevo dos seus corações. Davam-lhe o melhor que o sobejo da mesa dos ricos lhes atirava; vestiam-no com o que de menos remendado e puído, arrebanhavam aqui e ali. Podia faltar-lhes de tudo, menos esse carinho pelo garotinho, benção maior das suas vidas.
 
• Eis que chega o Natal
Frio de mumificar os desprovidos de agasalhos nos países de rigoroso inverno, calor sufocante nas terras tropicais. E o casal, sem estrela guia para apontar-lhes o caminho, suando por todos os poros dos corpos esquálidos andando ao léu, foi bater, no dia consagrado à natividade, num povoado decadente. A maioria das casas feitas de taipa de sopapo com cobertura de palmas de buriti. Galinhas ciscavam pelas ruas estreitas e tortuosas; porcos fuçando à procura de raízes para saciar a fome. Nos quintais e nos roçados, raquíticas espigas de milho atestavam a pobreza da terra.
 
• Eis uma igrejinha!
Uma ermida, à garupa de um outeiro estava aberta. Alguns fiéis aprestavam os preparativos da missa de logo mais. Obter socorro de quem, se a vilota era tão carente, como necessitados de tudo eram os mulambentos recém-chegados. Atreveram-se a entrar. O sacristão atarefado em enfeitar o altar, enxotou-os. Ah! Se o padre Cirilo, de grande formação humanitária e coração perfeitamente adaptado à sagrada missão sacerdotal, soubesse desse ímpio procedimento. Por certo o sacristão iria receber um sermão de derrubar o topete do desalmado.
 
Onde se viu, na véspera do Natal, tratar com tanta crueza aqueles coitados, contrariando os ensinamentos de Jesus, voltados para os excluídos. Sorte do sacristão de estar o vigário na casa paroquial, a preparar a homilia que diria, logo mais no púlpito da modesta capela. Palavras, com toda certeza, contrastantes com a atitude de seu afoito auxiliar. Carregando o desapontamento daquela rejeição, o casal chegou a uma casa de razoável aspecto. Ousaram solicitar acolhida por uma noite. Atendidos por uma mulher que circunscrevia a sua obesidade num vestido ramado e com folga bastante para facilitar-lhe os movimentos, o chefe da família indagou em tom de súplica:
 
– A senhora, pelo amor de Deus, tem um lugarzinho de favor para abrigar a gente? Tamo de passagem e manhanzinha vamo simbora.
 
– Olhando para o menino que exibia um sorriso angelical, a resposta, num correspondente de amigável propósito, não podia ser outra:
 
– Meceis vão lá pro fundo do quintá. Bem ao lado do galinheiro tem um celeiro. Meceis se deitam na páia que há por lá e durmam com Deus.
 
A noite, límpida e estrelada, abafava. Revoluteavam as mariposas em torno dos poucos lampiões de querosene, precária iluminação do vilarejo.
De alguns casebres partiam, para quebrar a monotonia da noite silente, toques de tambores, apitos e estridentes gargalhadas, coisas de gente simples e golgazã, adequadas à data prestes a ser comemorada. Acomodados no paiol, a mãe, apertando no peito o corpinho do menino, contava-lhe com singeleza dos humildes, as peripécias do nascimento do Filho de Deus.
 
– Num lugá, dizia ela, tar e quar como este em que nóis estemo,t ambém de favor, se recolhero, José e Maria, pouco antes do santo fio deles nascê. Só que pra nóis farta o burrinho e a vaquinha, como si vê nos presépio.
Estafada como estava, começou a cochilar, o que a fez interromper a narrativa. E o casal, cansado pela canseira do dia, logo adormeceu. Mas o menino, matutando sobre a história que a mãe lhe contara, abrutamente interrompida, não conseguia conciliar o sono. Direcionado pela inocência e não sabendo dos obstáculos que tornam perigosos os caminhos, como que impelido por uma força estranha, deixou o celeiro onde os pais ressonavam a bom ressonar, e pôs-se a andar a esmo. Passou por gente modestamente vestida que, ruidosamente se dirigia à capela. Magotes de roceiros apressavam os passos para a missa do Galo.
 
De vez em quando era saudado por um bêbado que, de borracho às pampas, mal conseguia emitir palavras audíveis. Não se receava de nada que ia encontrando pelo caminho,e não se amedrontava diante da figuração fantasmagórica formada pelo arvoredo farfalhante. Nem o piar agourento de algum curiango vadio assustava-o.
 
Como que num abrir de cortinas,viu uma clareira destacar-se numa sobra de mata nativa, não muito distante da estrada. Um repuxo inesperado conduziu seus passos para aquele deslumbrante espetáculo de luz. Achegou-se e viu, sentado no tronco de uma árvore recém caída, um homem de longa túnica branca envolto numa auréola beatífica. Nada receou. Foi avançando rumo à aparicão.
 
• Encontro com Jesus
Já perto da imagem que o atraía, percebeu que o homem fazia-lhe sinais para que se aproximasse. O menino, num desembaraço comovedor e inusitado para a sua idade sem temor, foi chegando. Acedeu ao convite do iluminado que levantou-se para abraçá-lo. Tomou-o pelas mãos e sentou-o em seus joelhos. Os cabelos longos e negros, chegavam-lhe aos ombros, sombreando-lhe o semblante amigo e acolhedor. Seu falar era um embalo de amor, de fácil alcance para uma criança. Com doçura disse:
 
– Como você se chama?
 
– Jesus, respondeu o menino sem titubear.
 
– Que bom. Então somos xarás. Eu também me chamo Jesus.
 
O menino sorriu e abraçou aquele homem, para ele, há pouco, um desconhecido, que logo se fez amigo. Encorajado, o menino destramelou a língua. Aquele homem era diferente de todos os que conhecera até então, invariavelmente ríspidos, ao escorraçarem os pais quando lhes pediam comida e abrigo.
 
– Sabe, xará, posso chamá-lo assim?
 
– Claro,respondeu de pronto o Jesus homem ao Jesus menino.
 
– E o garoto começou a contar tudo o que o Jesus homem já sabia de sobra, e fingia ignorar os pormenores que o menino detalhava com desenvoltura: que os pais não tinham posses, nem um cantinho de seu para acomodar a família; que andavam a perambular pelo mundo; mas que apesar de tudo, eram bondosos com ele; deixavam, às vezes de comer o pouco que almas generosas lhes davam, para que ele não passasse fome; quando o frio era rigoroso, desgarravam-se de suas poucas roupas, para aquece-lo.
 
– Conversa entre xarás
 
– São muito bons, sabe, xará? Só que não tem sorte. Não arranjam emprego em nenhum lugar. E, sabe? Vontade para o trabalho, até que rude seja, eles tem de sobra. Mas, cadê a terra?
 
– Escuta aqui meu menino, você pode ser de grande ajuda para seus pais.Você gosta muito deles, pois não?
 
– Gosto e muito retrucou o Jesus menino.
 
– Então escuta bem o que vou lhe dizer. E faça tudo direitinho para as coisas darem certo.
 
– Tá bom, pode falar.
 
– Metendo os cotovelos nos joelhos, levou ambas as mãos ao rosto para não perder uma só palavra que dizia o homem iluminado.
Você vai dizer a seus pais que, daqui a alguns quilômetros desta estrada, a cujas margens estamos sentados, existe um convento.
 
-O que é um convento, xará?
 
-É uma grande casa onde alguns homens solitários, que todo mundo chama de frades, dedicam-se ao serviço de Deus. Lá eles rezam e cultivam os campos para suprirem as necessidades do convento. Os frades irão recebe-los. Mas, não deixe os seus pais falarem. Converse você mesmo com eles. Diga-lhes que um homem chamado Jesus, mandou você, que também é Jesus dizer que os seus pais gostariam de ter um chão para plantar e um casolo para morar. Nada mais do que isso.
 
– E eles vão atender a gente?
 
– Transmita-lhes as minhas palavras e tudo dará certo. Depois de haver assim falado, o homem que Jesus menino encontrou envolto numa auréola fulgurante, levantou-se, acarinhou o menino e desapareceu na escuridão.
Só então o menino deu-se conta do quanto se afastara do celeiro, onde não conseguia conciliar o sono. Urgia voltar para que os pais, ao acordarem, já que a madrugada não tardaria, não temessem pela sorte do filho. Resoluto, encheu-se de coragem e meteu-se a caminhar. O caminho a percorrer que lhe parecia tão distante começou a encurtar, à medida que andava.
Reconheceu em breve, a casa que os acolhera. Foi ao celeiro. Os pais ainda dormiam. Deitou-se, rememorando a façanha que vivera, e dormiu pesadamente, até ser despertado por uma sacudidela. Era a sua carinhosa mãe que o chamava.
 
-Vamo, fio, precisamo ir embora. Aproveitemo a boa vontade da dona da casa que vai dá inté um café pra gente. Precisamo aproveitá, por que num é sempre que se encontra gente de bom coração.
 
Ergueu-se, esfregou os olhos e fez uma carinha de quem punha em dúvida o que lhe acontecera durante a noite e começou a matutar: será que eu sonhei?
 
• Para o convento
– Que saí à toa do celeiro e dei com aquele homem bondoso que me disse que era meu xará e mandou que eu procurasse um convento que fica na beira da estrada? Ou é verdade isso que eu vivi e senti?
 
Despertou do seu cismar quando ouviu o pai determinar:
 
– Vamo vortá di donde nóis viemo. Num adianta tá batendo perna por aí.
 
– Não sinhô – levantou-se a voz do Jesus menino. Nóis vamo in frente, por que nunca se deve vortá pra donde a gente foi infeliz.O negócio é i in frente.
 
A disposição do garoto espantou o pai:
 
– Uai! Ele nunca foi de dá parpite, e agora tá querendo dá orde prá gente.-
Pelo sim pelo não, ele que sempre caminhara em vão, deu uma olhada de esguelha para a mulher, como que em busca de um conselho.
 
– Quem sabe, né? – sussurrou ela ao ouvido do marido. E vamo segui o rumo que ele está sugerindo.
 
– E partiram. Fresca a madrugada. Assanhada com o nascer do sol, a passarada abrilhantava o espetáculo da natureza, com suaves gorjeios na demanda de frutinhas silvestres das árvores que margeavam o caminho. O andar já extenuava quando vislumbraram na grimpa da montanha um austero casarão de pedra, cercado de vistosa plantação. Chegaram.
 
– Ofegantes, por íngreme a estrada que conduzia à sóbria edificação. De perto, parecia mais um castelo, com dois pavimentos, larga portada e janelões a demonstrarem severidade. Os forasteiros viram-se à frente de um portal de grandiosas proporções, com detalhes de esmerado acabamento. Na parte dianteira da pesada peça, uma aldrava destinada a chamar os habitantes do casarão. Bateram com firmeza. Demora pouca, abriu-a um frade jovial, rosto avermelhado e ventre denotando uma precoce protuberância. Deixou-os entrar.
 
– Louvado seja Deus. A que vêem os senhores?
E o Jesus menino, lembrando-se da recomendação do xará, sem titubear, soltou a fala:
 
– Posso falar sozinho com o senhor?
 
– Como queira, – respondeu o frade. E levou-o para uma sala contígua à da recepção, onde os pais ficaram à espera. Uma grande árvore de Natal enfeitava o cômodo, adequada à simplicidade monacal. Sem cerimônia, o Jesus menino foi logo desembuchando. Contou o encontro com o Jesus, seu homônimo. Estava ele iluminado como se todas as estrelas do céu tivessem se juntado para dar-lhe aquele fulgor. E transmitiu o recado que lhe fora recomendado.
 
– Sabe, seu frade, eu não sei se sonhei ou se tudo isso é verdade.
O bondoso religioso, que por sinal era o superior da Irmandade, afagando os cabelos do Jesus menino, soltou uma cautelosa gargalhada e disse:
 
– É tudo verdade, meu menino. O convento está precisando de gente como vocês. Não mais precisarão bater pernas por este mundo cheio de desigualdades e injustiças.
 
– Apanhou o menino pela mão e conduziu-o até uma janela que dava para um campo cultivado na parte posterior do convento e, apontando para uma casota, envolta na mansidão do arvoredo, ordenou que a ocupassem de imediato.
 
– Amanhã, porque hoje à noite comemoraremos o nascimento de Jesus Cristo, o teu xará, determinaremos qual o trabalho de vocês no convento.
 
– Sem mais o que dizer, encaminhou-os para o lar que acabavam de ganhar.
Retornando para o interior da casa dos religiosos, o frade superior, certo de que fora o Jesus da Cristandade quem aconselhara e guiara os passos do seu pequenino xará, ameigou com as mãos o Crucifixo que pendia de um rosário de grossas contas que trazia preso ao hábito, persignou-se como que ungido por um sopro divino e exclamou, lábios a tremerem:
 
SENHOR, SEJA FEITA A VOSSA VONTADE

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